quinta-feira, 22 de junho de 2017

YOGA E ECOLOGIA





Por Swami Niranjanananda Saraswati
Ganga Darshan, 9 de Janeiro de 1999.

PARTE I

O tema da ecologia não existe de forma isolada. Ele está conectado com a economia e com a indústria e, portanto é muito complicado para as pessoas hoje em dia se tornarem ecologicamente conscientes. Na esfera social, o ambiente é relacionado à indústria e ao comércio. Na esfera individual, está relacionado à maneira como o sujeito percebe o ambiente no qual se vive. Cada indivíduo ou se conecta ou se isola da natureza devido a outras necessidades e vícios.

A chave é o estilo de vida

Nossa relação com a natureza está conectada com nossa atitude frente à vida de uma forma geral, quer estejamos felizes e contentes ou insatisfeitos ou infelizes com nosso estilo de vida. Isso refletirá o modo como vemos o mundo à nossa volta e se nós o respeitamos ou o maltratamos.

Os Yamas (disciplina social/autocontrole) e Nyamas (disciplina pessoal) no Yoga são um indicativo dessa interação intrapessoal com as leis da natureza e o transcendente. Saucha, por exemplo, o qual é definido como limpeza, não é apenas individual, é também ambiental. Não é apenas questão de higiene, é também se tornar responsável pela expressão e experiência da beleza na vida e no meio ambiente. A beleza dá a luz à alegria e à felicidade, esses são os resultados da beleza.

Se o jardim é bonito, isso também cria uma mudança na atmosfera e no meio ambiente. Quando você caminha pelo jardim, o seu espírito se eleva. A beleza do jardim é física, mas ao mesmo tempo ele também tem um impacto no ambiente e no seu estado mental. Se a sua consciência lhe aponta que deve fazer do seu lar, seu ambiente e o seu mundo um lugar belo, então esse é o primeiro passo em direção a uma integração apropriada com a natureza. É o entendimento da interação do indivíduo com a natureza, por um lado, e do indivíduo com o divino, por outro, que o fará ecologicamente pleno.

PARTE II - A chave é o estilo de vida

Há muitas dimensões para a ecologia – material e espiritual. Nenhuma pessoa pode fazer a diferença em se tratando da ecologia material, especialmente no que diz respeito às indústrias e comércios. Para realizar isso, teríamos que modificar toda a estrutural legal e política de uma sociedade. Então, sempre haverá alguma exploração. A mudança só pode vir do nosso próprio estilo de vida. Uma mudança em nossa atitude pessoal e em nossa interação com a vida é a única abordagem para modificar a forma como compreendemos o mundo e os seus ecossistemas.

A ciência da ecologia está intimamente relacionada com a sociedade humana e suas necessidades, as necessidades da indústria e do comércio. O componente humano, o nosso entendimento da participação e envolvimento humano na natureza é relativamente reduzido. Nós ainda nos vemos de fora da ecologia e dos ecossistemas dos quais somos dependentes. Pode ser que haja centenas de manifestações “verdes” diariamente envolvendo milhares de pessoas, mas elas não farão a mínima diferença nas políticas  implementadas pelas indústrias, pelo comércio e pelos governos. Isso pode ser visto mundialmente.

PARTE III - Interdependência de todas as espécies




Ecologia é o estudo de como diferentes espécies e aspectos da natureza podem trabalhar juntos e em simbiose. De acordo com cálculos ancestrais, existem 8.400.000 espécies na natureza. Desde os tempos em que cientistas começaram a registrar espécies distintas, foi afirmado que aproximadamente 1.500 espécies entram em extinção todos os anos, espécies que transitam pelos universos das plantas, dos animais, insetos e bactérias. Atualmente, apenas 200.000 variedades de espécies foram registradas por cientistas.

Na tradição Védica está colocado de forma bem clara que a vida de uma espécie é disposta para o bem-estar de todas as outras. Todas as 8.400.000 espécies no planeta vivem umas pelas outras, exceto uma. Uma espécie vive por ela mesma e essa é a espécie humana. Se a espécie humana também pudesse viver de acordo com as leis da natureza e em harmonia com as outras espécies, o planeta se tornaria um lugar muito distinto para habitarmos. É aí que a perspectiva Yogi sobre a ecologia lentamente começa a se desenvolver.

PARTE IV - Interdependência de todas as espécies

Havia um tempo em que humanos também sustentavam a natureza e a Terra.  A tradição Védica acredita que os mortos devem ser queimados e não enterrados. Não é uma crença religiosa ou cultural. A tradição dos Vedas se opõem ao enterro porque os corpos são sujeitos à diferentes formas de doenças. Quando se morre devido à alguma doença, o vírus e bactéria mantém-se vivos no corpo. Quando o corpo é queimado, as doenças também são extintas, mas se o corpo é enterrado, esse vírus e bactérias se espalham na terra e afetam a água, as árvores e as plantas, tornando o ambiente poluído e doente, eventualmente podendo contaminar até mesmo o nosso alimento.

Na tradição Védica apenas os Yogis e crianças pequenas foram concedidas o direito do enterro. Os corpos de crianças pequenas são tidos como puros. Yogis podem tornar o seus corpos puro através de Sadhana (prática). Portanto, não há mal algum no fato deles serem enterrados, mas todos os demais devem ser cremados. Essa é uma prática e crença ecologicamente consciente.

No cristianismo e islamismo essa crença não existe por diferentes razões. Essas duas religiões se desenvolveram em lugares de deserto, áridos e desolados no Oriente Médio. Não haviam árvores e, portanto, não havia madeira, de modo que os corpos eram enterrados sob a areia. A qualidade da areia e a intensidade do sol no deserto é tal que quando a areia torna-se quente, é como um forno. Um grão de areia pode deter uma grande quantidade de calor. Se um corpo é enterrado na areia, ele será, junto com seus vírus e bactérias, destruído pelo extremo calor. O terra, contudo, retém muito menos calor. Se um corpo é enterrado sob a terra, a bactéria se espalhará.

Em nossa ignorância nós incorporamos essas tradições em nosso sistema religioso, embora apareçam situações em que um corpo não pode ser queimado por razões “religiosas”. É o ápice da idiotice humana.

PARTE V - Benefícios de um estilo de vida natural

Existem muitas outras regras colocadas pela tradição védica que são parte de nosso estilo de vida e que explicitam cuidado com o meio ambiente. Quando uma cultura segue uma regra criada com o entendimento das leis da natureza, então a cultura pode sobreviver qualquer ataque da natureza, não importando quão devastador é a destruição.

Alguns anos atrás houve um estudo comparando o potencial agrícola dos EUA, com uma população de 200 milhões e da Índia, com uma população de 900 milhões. Com esse atual sistema de produção agrícola e utilização de químicos, os EUA tem o potencial para alimentar toda a população humana por 50 anos, na potência de sua terra. Na Índia, a qual sustenta 900 milhões de pessoas e tem as suas dimensões de terra menores que as dos EUA, a terra agrícola tem o potencial para alimentar toda a população humana por 300 anos.

Qual o porquê disso? Os EUA é um país novo, de aproximadamente 400 anos. Nós não sabemos a idade da Índia, mas racionalmente falando a linha do equador já seria povoada dos tempos em que os humanos pisaram na Terra pela primeira vez.

PARTE VI

A diferença é o estilo de vida. Se você adotar um estilo de vida natural, vivendo de acordo com as leis da natureza e sem tentar alterar as condições naturais, então você está mais ecologicamente consciente. Quando está frio, você coloca um agasalho. Quando está quente, você retira suas roupas. Mas se você tentar aquecer um quarto ou um prédio por meios artificiais, então os químicos afetarão a atmosfera, como já está acontecendo com o desmantelamento da camada de ozônio devido ao uso de aerossol e gases CFC nos ar-condicionado e refrigeradores. Então, mais luxo e conforto vão na contramão da natureza.

Por quê não ficar sem confortos momentâneos? Esses confortos são necessidades artificiais, não necessidades reais. Necessidades artificiais sustentam a indústria e o comércio. Você pode cozinhar seus alimentos de uma forma mais simples, como nossa cozinha no Ashram, com carvão e madeira, ou você pode comprar um micro-ondas para fazer comidas rápidas. O que acontecerá, então? Você perceberá que não tem tanto tempo e que precisará fazer as coisas o mais rápido possível.

As pessoas tem muitas manias em relação ao tempo, especialmente nos países modernos e industrializados. Eles trabalham de forma árdua para suprirem as demandas das necessidades artificiais. Você pode viver sem um micro-ondas. Na realidade, a comida é mais saborosa sem ele. O gosto, a saúde e muitos outros benefícios são sacrificados pelo bem de uma comida instantânea.

Cozinhar é uma alegria. Sente-se, descasque e pique os legumes. Imagine como você irá preparar o alimento. O fluxo de informações dos vegetais até você e o fluxo de sua interação com um alimento orgânico é uma relação muito bonita. Se você não pode empregar uma hora por dia para cozinhar, você perdeu a alegria de viver. Se você não pode tomar um banho frio no meio do inverno sem pensar, “Ah, como eu queria ter água quente!”, então você não pode aproveitar a sensação dessa água fria, a qual gera uma saúde melhor, estamina e imunidade ao corpo.

PARTE VII - GOD: Geração, Organização e Destruição


Com todos os movimentos e teorias ambientais, uma coisa é certa. A consciência cósmica é muito mais consciente do crescimento e da destruição que toda a população humana. Se há um desequilíbrio em algum lugar, a consciência da natureza irá lidar com isso. A única forma de fazer isso é criando destruição. Esse é o conceito da trindade: GOD – Geração, Organização e Destruição. Brahma, Vishnu e Shiva (personagens mitológicos Hindus).

Geração e criação parecem estar completas em um nível palpável, físico, mas a geração continua em um nível sutil. Organização, manutenção e continuação estão acontecendo. Na realidade, os seres humanos são parte da consciência de Vishnu – preservar, manter e nutrir. Nós não temos a consciência de Brahma, o aspecto do divino, em nós. Nós estamos na consciência de Vishnu - Organização. Um encontro com Shiva é como um acidente. Terremotos, tragédias e morte são encontros com D (Destruição). Isso é Shiva. Quando quer que seja que tenhamos tais encontros com D (Destruição), ele vem como um grande choque para o nosso sistema.

Então, de um ponto de vista cósmico, nós estamos na consciência de Vishnu e no nível de Tamas (estabilidade/inércia). Nós não queremos mudanças. Nós estamos chocados e nos entristecemos quando vemos a natureza Rajasica (dinâmico) de Shiva, que vem e limpa tudo, vem e destrói tudo para que um novo nascimento possa ocorrer. Essa é a forma como a natureza irá se curar e se renovar do impacto da espécie humana.


Swami Niranjanananda

Hari Om Tat Sat

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